quinta-feira, 20 de maio de 2010

Propostas para Poupar uns M€

1. Aprovar regime de 40 horas semanais de trabalho, universal para todos os regimes e carreiras do Estado. Em tempo de crise, sem qualquer acréscimo de remuneração. Uniformização das regras sociais: público e privado com os mesmos direitos. Professores, juízes, carpinteiros, médicos, administradores, assistentes operacionais, operários, deputados, vereadores, gestores, etc todos pela mesma bitola - 40 horas.

2. Separar no acto de triagem do SU os episódio de urgência e não urgência, permitindo o reencaminhamento (com definição de prazos) para a consulta aberta do Centro de Saúde ou para qualquer uma das consultas externas do Hospital. Reduzir-se-iam imenso às tão badalas horas extras (médicas) e as nossas urgências serias mais urgências…

3. Dar um papel mais central aos Enfermeiros na «Medicina Preventiva» nos Cuidados de Saúde Primários. O estímulo que isto representaria, e a poupança em horas de trabalho aos médicos, levaria a uma poupança descomunal, e libertaria mais clínicos para a área «Curativa». Acabaria também esta mitológica e crónica falta de médicos. (De que adianta saber supostamente mais, sem tempo para fazer ?!!?).

4. Dar poder organizativo e remuneratório a estruturas intermédias de gestão, como por ex. os Centros de Responsabilidade Integrados (CRI), em contexto hospitalar; Agrupamentos de Centros de Saúde (ACES) nos Cuidados de Saúde Primários.

5. Extinguir a ADSE e outros sub-sistemas, porque que motivo uma franja de 700 000 mil têm determinados regalias e os restantes, mais de 9 milhões, têm a Segurança Social? Se todos os anos a ADSE soma prejuízos…

6. Andamos todos incomodados com a falta de concorrência nos combustíveis, mas pactuamos silenciosamente com a completa, total e absoluta ausência de concorrência entre farmácias. Ou alguém consegue comprar o brufen mais barato na farmácia X?

7. Cada utente ter, em vez do cartão de saúde, um qualquer sistema de armazenamento portátil de informação, onde ficassem registados actos médicos/cirúrgicos prévios, medicação e exames complementares. De modo a evitar repetições, desperdícios e em última análise um mais rápido acesso a um histórico em caso de urgência

8. Regionalmente criação de uma Unidade Local de Saúde do Tâmega e Sousa, de modo a obter ganhos em saúde, ganhos de acessibilidade, ganhos de produtividade e integração efectiva de cuidados primários com os hospitalares, pela via do factor escala e eficiência. A gestão integrada dos Centros de Saúde e da Unidade Hospitalar de referência local, Unidade Local de Saúde (ULS), que vão sendo implementadas pelo País, tem demonstrado interessantes ganhos de eficiência e de acessibilidades para as populações abrangidas. È tempo de esta região renovar-se também nos modelos organizacionais.

Tempos Decisivos

Iniciou em Maio, em plenas funções, um novo Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa E.P.E. dirigido pelo Dr. José Luís Catarino, ex-presidente do conselho de administração do Hospital de Valongo e tido como próximo do Sr. Secretário de Estado da Saúde Dr. Manuel Pizarro. Também um ilustre pacense tem agora lugar nessa administração o Dr. Paulo Sergio Barbosa. Faço votos que estas particularidades sejam uma mais-valia para a nossa região, que tendo dirigentes locais e com boas relações com o poder central, o acesso ao bem Saúde por parte das populações abrangidas seja efectiva e melhore, em prol de um bem comum.

Alguém disse que, nós portugueses, substituímos o conceito de medicina baseada na evidência para o de medicina baseada na urgência. É neste sector que se reflecte a nossa incapacidade organizativa em matéria de cuidados de saúde, nomeadamente os de prevenção e promoção, ditos primários. A urgência do hospital é o último reduto de quem necessita de cuidados assistenciais e a eles não consegue aceder por outra via, é nele que se espelha a ineficiência do sistema de saúde. Ao SU acorrem doentes que não conseguem resposta atempada do seu médico de família; os que não conseguem aceder a uma consulta de especialidade de outra forma; os observados/transferidos em unidades privadas (algumas com urgência aberta e sem internamento); e, finalmente, os que verdadeiramente a ele deveriam recorrer: os acidentados ou acometidos de doença súbita com risco de vida imediato.

Nos países com medicina mais (e melhor) organizada, são estes últimos que praticamente recorrem ao SU. È o caso dos nossos vizinhos espanhóis. Assim, as equipas médicas nas urgências são reduzidas tendo como papel principal o diagnóstico imediato da situação e a estabilização dos parâmetros vitais. Uma vez feito o estadiamento clínico, é aos serviços internos do hospital que compete tratar o doente em causa. Em Portugal, não é bem assim que se passa. Os SU funcionam quase como um hospital dentro de próprio hospital, o que leva a um frequente aumento dos quadros profissionais ou, última moda, a contratar médicos tarefeiros, para responder às necessidades crescentes do SU.

Neste contexto não admira que os gastos dos hospitais e do sector da saúde não parem de crescer.

Os tempos são de crise, todos a estamos a sentir, mas para quem tem a responsabilidade de mudar o rumo do país, existem opções que poderão ser decisivas e comprometedoras para as gerações vindouras. Também a Saúde poderá dar um contributo para a sociedade pela via do combate ao desperdício e pela via da promoção de boas prácticas em Saúde. Procurando activamente soluções inovadores para os problemas e ou mesmo tempo, sejam geradoras de mais-valias para áreas necessitadas.

A título de exemplo aqui ficam algumas ideias. Porque não separar no acto de triagem do SU os episódio de urgência e não urgência, permitindo o reencaminhamento (com definição de prazos) para a consulta aberta do Centro de Saúde ou para qualquer uma das consultas externas do Hospital. Reduzir-se-iam imenso às tão badalas horas extras (médicas) e as nossas urgências serias mais urgências. Dar poder organizativo e remuneratório a estruturas intermédias de gestão, como por ex. os Centros de Responsabilidade Integrados (CRI), em contexto hospitalar; Agrupamentos de Centros de Saúde (ACES) nos Cuidados de Saúde Primários. Promover um mercado livre nas farmácias, andamos todos incomodados com a falta de concorrência nos combustíveis, mas pactuamos silenciosamente com a completa, total e absoluta ausência de concorrência entre farmácias. Ou alguém consegue comprar o brufen mais barato na farmácia X? Cada utente ter, em vez do cartão de saúde, um qualquer sistema de armazenamento portátil de informação, onde ficassem registados actos médicos/cirúrgicos prévios, medicação e exames complementares. De modo a evitar repetições, desperdícios e em última análise um mais rápido acesso a um histórico em caso de urgência.

Por fim uma solução para a nossa região, a ser ponderada por esta nova Administração do CHTS: criação de uma Unidade Local de Saúde do Tâmega e Sousa, de modo a obter ganhos em saúde, ganhos de acessibilidade, ganhos de produtividade e integração efectiva de cuidados primários com os hospitalares, pela via do factor escala e eficiência. A gestão integrada dos Centros de Saúde e da Unidade Hospitalar de referência local - Unidade Local de Saúde (ULS) - que vão sendo implementadas pelo País, têm demonstrado interessantes ganhos de eficiência e de acessibilidades para as populações abrangidas.

Por que razão os mais de 500 000 habitantes do Tâmega e Sousa não têm um melhor acesso aos cuidados de saúde? Não será possível mudar este rumo, Inovando? Gerando mais-valias nesta cadeia de valor que são os cuidados em saúde.

O CHTS poderá estudar as soluções implementadas pelo País e concretizar a que melhor se adeque às características intrínsecas na nossa região. De modo a melhorar o acesso á saúde, prevenindo ao invés de curar, uma vez que aí o custo é bem menor para todos, utente e sociedade. A chave destes processos está na prevenção e planeamento.

in Tribuna Pacense a 21.05.2010

domingo, 9 de maio de 2010

IMAGIOLOGIA III

Os progressos verificados ao longo dos anos na Imagiologia sempre estiveram intimamente ligados ou potenciaram o desenvolvimento ocorrido noutras áreas da medicina. Esse facto foi determinante para a melhoria do conhecimento das patologias do ser humano. Basta pensar na mudança espectacular da prática médica operada através da divulgação da radiografia simples, sem a qual não teria sido possível caracterizar as diversas situações patológicas que atingem o esqueleto, das mais complexas até às mais simples, como por são as do foro traumático e assim estabelecer as bases correctas do seu tratamento.

Ainda no que diz respeito à cooperação da Imagiologia com outras especialidades para além da referência feita à radiologia simples, pode-se considerar que, até ao presente, existiram mais outros dois momentos igualmente cruciais nesta cooperação, coincidentes com a invenção e rápida difusão da Ecografia, TAC e RM. Apesar destes constituírem os marcos fundamentais, a evolução tecnológica da imagem aplicada ao corpo humano tem-se mantido em constante desenvolvimento facilitando-nos múltiplos processos de estudo das patologias que, ultrapassando os aspectos puramente morfológicos, já nos fornecem dados de ordem fisiopatológica cujo interesse é evidente.

Se os referidos avanços técnicos da Imagiologia trouxeram e continuam a trazer, vantagens indiscutíveis podem, quando não devidamente utilizados, suscitar alguns inconvenientes que convém mencionar e dos quais nos devemos precaver. Estes inconvenientes resultam de não se respeitarem as regras de actuação inerentes, impostas pelas limitações e potencialidades que lhes são características.

Assim, o aperfeiçoamento das Técnicas de Imagiologia aliada à sua facilidade de execução, tornando-as cada vez menos invasivas, tem produzido imagens de grande fidelidade e definição cuja novidade tem levado à sua entusiástica, difundida e, por vezes, indiscriminada obtenção. Como além disso, os médicos especialistas que manipulam estas técnicas raramente têm a oportunidade ou possibilidade de fazer uma exploração clínica completa dos respectivos doentes, e não recebem, na maioria das vezes, qualquer espécie de indicação útil sobre as dúvidas que se pretendem ver esclarecidas naquele caso concreto, acabam por se circunscrever à analise e interpretação pura da imagem nos relatórios escritos do exame efectuado.

Desta forma se vai acumulando uma quantidade de informação, aliás dispendiosa, cuja utilidade prática pode, nalguns casos, ser duvidosa e enganadora exigindo uma avaliação crítica do seu real significado patológico, avaliação essa que só é possível fazer conjugada com os respectivos dados clínicos.

Por outro lado, por exemplo a Ortopedia, que possuí como característica intrínseca da dinâmica do seu raciocínio clínico, a aproximação imediata ao diagnóstico baseada fundamentalmente na história e observação cuidadas, com preferência pela Imagiologia como auxiliar de inestimável valor na referida dinâmica, ao ser-lhe fornecida neste campo uma informação de alta qualidade técnica, corre o risco, como tantas vezes acontece de desprezar a sua metodologia tradicional e fixar-se também na imagem, sem ponderar convenientemente a sua correlação clínica. A consequência inevitável será estabelecer uma orientação terapêutica desajustada, com grande probabilidade de vir a ser ineficaz, senão prejudicial, para o doente.

Estas considerações demonstram a relevância e necessidades dos dados clínicos para uma correcta interpretação das diferentes modalidades de imagem das estruturas osteoarticulares.

Numa época e cultura propensa ao imediatismo das sensações produzidas em detrimento da percepção especulativa, a Imagiologia possui todos os atributos que a tornam susceptível, quando mal aplicada e utilizada, de exercer uma influência dominadora excessiva na orientação clínica de grande parte das situações, com os incovenientes já assinalados. Por isso nunca será demais repetir que a imagem deve estar subordinada e tem de ser analisada de acordo com o quadro clínico presente e não o inverso.

Isto exige da parte do clínico um conhecimento correcto das possibilidades da Imagiologia que, ao serem potenciadas pelos dados clínicos, obrigam-no a partilha-los com os colegas que manipulam essas técnicas, o que supõe manter com eles um constante diálogo. Só desta forma será possível pedir e executar os exames mais adequados à situação patológica que se pretende estudar, evitando atrasos condenáveis no diagnóstico e respectiva terapêutica a instituir, para além das desnecessárias perdas de tempo e de gastos excessivos que doutra forma se infligem aos doentes e às instituições onde são assistidos.

Um exemplo clássico de uma actuação errônea nesta matéria retirado da prática clínica diária, é-nos dado pelo doente na sua primeira crise de lombalgia pura, cujo único exame complementar de diagnóstico que lhe mandaram fazer é um TAC da coluna lombar. Esta situação não é infrequente e levanta de imediato a suspeita de que o doente não foi provavelmente, observado (para já não falar daqueles doentes que são os primeiros a exigirem o TAC sem o qual se sentem defraldados e mal atendidos). Mal ele se sentou frente ao médico e referiu a sua dor lombar é-lhe entregue o respectivo pedido do exame cujo prestígio, como elemento decisivo do diagnóstico, admite sem reservas, por se encontrar larga e erroneamente difundido na generalidade do público. Se reparar-mos, conforme está descrito, que cerca de 20% das alterações detectadas neste tipo de exame são de significado patológico duvidoso ou não têm correspondência clínica, que a lombalgia sendo um sintoma mais frequente tem múltiplas causas e um componente funcional muito importante impossível de detectar por este meio, fica bem ilustrado o somatório de erros que se podem acumular quando, para o diagnóstico de uma simples lombalgia, nos baseamos apenas no referido exame.

Um outro cenário paralelo e também frequente é o daquele doente que ocorre à consulta visivelmente ansioso porque nas múltiplas radiografias do esqueleto, devido a umas vagas queixas dolorosas poliarticulares, os respectivos relatórios (por eles lidos atentamente) enumeram minuciosamente uma série de anomalias. Nestas tenta desesperadamente encaixar as suas queixas e por vezes até inventa, inconscientemente, outras que satisfaçam essa pretensão, subvertendo o seu relato de sintomatologia que deve ser cuidadosamente analisado e desmontado pelo especialista, a fim de evitar enganos grosseiros de diagnóstico. Aqui o problema reside no definir o que se entende como padrões de anormalidade de determinadas situações, de modo a não tomar por patológicas imagens que correspondem por exemplo ao envelhecimento natural das estruturas esqueléticas. Isto revela mais uma vez a importância da análise das imagens com base na história e a observação clínica dos respectivos doentes.


Muitos outros exemplos poderíamos ainda dar de situações idênticas cuja conclusão a tirar, é que não será possível do ponto de vista patológico, fazer uma interpretação dessas imagens considerada correcta fora do contexto clínico das mesmas ou construir uma hipótese de diagnóstico com base exclusivamente nos respectivos dados imagiológicos.

As considerações feitas revelam a necessidade imperiosa do diálogo clínico-imagiológico sem o qual não será possível estabelecer o diagnóstico exacto e instituir a terapêutica adequada.


in Tribuna Pacence a 07.05.2010

quinta-feira, 22 de abril de 2010

A radiação e os seus malefícios

Em Imagiologia poderemos dividir as técnicas diagnósticas em função da fonte de energia utilizada para gerar imagens: em radiação ionizante ou não ionizante.

As modalidades que utilizam radiação ionizante são as que utilizam radiação x, gama, etc. A radiação x é a utilizada na Imagiologia, enquanto a radiação gama é comumente utilizada na Medicina Nuclear e/ou Radioterapia. E o que são radiações ionizantes?

Em Imagiologia, a energia eléctrica é transformada por uma máquina (gerador) em energia electromagnética (raios X) e em energia térmica. Posteriormente, esses RX irão induzir outras trocas entre tipos e estados de energia na matéria, sobre a qual incidem. Então, a radiação mais não é, do que a energia emitida e transferida através da matéria. A luz visível é uma forma de energia electromagnética emitida pelo sol à qual podemos chamar radiação electromagnética. A matéria que intercepta uma qualquer radiação, diz-se irradiada ou exposta à radiação. A radiação ionizante, tem a capacidade de arrancar um electrão da órbita em turno do núcleo, de modo a este interagir com outro átomo próximo. Tornando a átomo ionizado, com carga positiva. Qualquer tipo de energia capaz de ionizar a matéria denomina-se ionizante. Os raios X e gama são as únicas formas de radiação electromagnética com energia capaz de ionizar a matéria.

Existem na natureza algumas formas de radiação ionizante que são prejudiciais para o ser humano. Uma delas é denominada radiação ambiental natural, outra é denominada radiação cósmica.A radiação ambiental resulta da desintegração de alguns átomos que existem na matéria, como por exemplo o urânio. A radiação cósmica vem do universo, das várias estrelas e material celeste, que existe no espaço, libertando radiação que atinge o nosso planeta constantemente. Os RX utilizados na medicina são a primeira fonte de radiação ionizante criada pelo Homem. Os benefícios da sua utilização são indiscutíveis: têm a capacidade de observar o corpo humano in vivo. Mesmo assim, a sua aplicação deve ser sempre prudente, procurando evitar exposições desnecessárias. Entre as outras fontes não naturais tem-se a referir, as centrais nucleares, bombas atómicas, certos aparelhos de televisão, luzes de aeroportos, etc.

Mas o efeito ou capacidade de ionizar induz um efeito biológico, este já não a um nível atómico mas molecular. O efeito biológico da radiação engloba bastantes factores, estando relacionado com o efeito ionizante da radiação em geral. Uma vez ionizado um átomo, mudam-se as suas capacidades de união química, podendo levar à ruptura da molécula onde se inserem os átomos ionizados. A molécula anormal pode funcionar, mas de uma forma incorrecta e dar lugar a tecidos neoformativos, ou não trabalhar e necrosar. Este processo não é irreversível, pois as moléculas têm enzimas que “reparam” as moléculas danificadas mas por vezes isso não acontece. E surgem sintomas de excesso de radiação como por exemplo: diarreias, náuseas, vómitos, hemorragias, etc. Estes efeitos que se detectam horas, dias, semanas após a exposições prolongadas, dizem-se somáticos.

Por vezes a radiação pode provocar alterações atómicas na molécula de ADN que se encontra no núcleo das moléculas. O ADN, tem também uma capacidade regeneradora, mas pode por vezes, ocorrer uma mutação, um erro na sua sequência, que não é reparado, sendo transmitida de célula para célula. Por tal motivo, as mulheres em idade fértil, e em que se suspeite de gravidez, não devem estar expostas a radiações. Sobretudo nos primeiros meses de gestação.

Certas alterações, podem só se manifestar passados anos da exposição à radiação e ser até transmitida ás gerações seguintes, podendo só se manifestar na 2ª geração. Estas alterações dizem-se genéticas e um exemplo são os descendentes dos indivíduos expostos à radiação das bombas atómicas no Japão, na 2ª Guerra Mundial. Neste caso estamos a falar de exposições a doses muito superiores aos limites máximos admissíveis.

Todos os equipamentos imagiológicos que utilizem radiação x têm essa capacidade de ionizar moléculas. Uns mais do que outros. Por ordem crescente de energia teremos o densitómetro, no qual se realiza a densitometria óssea, mamógrafo, que realiza as mamografias, o equipamento de raio x , que realiza todo o tipo de raio x (seja ele convencional, digital, com fluoroscopia, etc) e por último o TC, vulgarmente designado por TAC, que emite mais radiação do que qualquer outra técnica.

O beneficio que provém da exposição a estas radiações supera, na maioria dos casos, os riscos que comportam.

Como nota refira-se que a ecografia não utiliza qualquer radiação como fonte de imagem, mas sim a capacidade de propagação dos sons em meio aquoso. No caso ultra-sons, com frequências imperceptíveis ao ouvido humano. Daí que não seja conhecido nenhum efeito nocivo para os seres humanos pela sua aplicação.

A Ressonância Magnética também não utiliza radiação ionizante mas sim determinadas ondas de radiofrequência combinadas com campos magnéticos fortes. Trata-se de uma técnica que utiliza as propriedades magnéticas dos átomos para gerar imagens de alta resolução. Cada vez mais surgem novas aplicações para esta técnica. O recurso a esta técnica é ainda limitado, uma vez que os custos são ainda elevados, embora os benefícios sejam enúmeros e os malefícios quase inexistentes.

Mais uma vez afirmo, os dados imagiológicos não devem ser o centro da avaliação do doente, mas sim coadjuvar os dados e a avaliação clínica efectuada pelo médico assistente.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

IMAGIOLOGIA I

Nesta edição iniciarei a abordagem de uma área clínica transversal a todas as especialidades médicas e com a qual a grande maioria (se não mesmo todos nós) já contactamos com ela, a Imagiologia.
A radiação utilizada em diagnóstico médico não foi inventada, mas sim descoberta e de um modo acidental. Durante as décadas de 1870 e 1880, vários laboratórios de física, em várias universidades, investigavam os electrões, na altura chamados raios catódicos, através de enormes tubos de vidro, semelhantes às actuais lâmpadas, dentro das quais existia um gás rarefeito que imitia o vácuo (mas aceitável para a época). Eram os chamados tubos de Crookes, em homenagem ao seu inventor Sir William Crookes. Na época existiam vários tipos de tubos de Crookes e a maioria produzia radiação X, a qual não era detectada ou registada.

Em meados de Novembro de 1895, Conrad Roëntgen, trabalhava no seu laboratório da Universidade de Wurzburg na Alemanha, com um tubo de Crookes, quando por casualidade verificou que uma placa com uma substância fluorescente que se encontrava perto do tubo, emitia uma pequena luz, que aumentava quando a aproximava do tubo . Permitiu assim, não ter dúvidas quanto à origem da luz – provinha do tubo de Crookes. Roëntgen começou então a investigar esta luz que denominou de “X”, interpondo entre a fonte e a placa fluorescente vários materiais diferentes (madeira, alumínio, mão, ...).



Durante vários meses investigou essa luz X, descobrindo quase todas as propriedades físicas conhecidas até hoje. Publicou os seus trabalhos em 1897 e recebeu posteriormente o Prémio Nobel da Física em 1901.

Desde então até aos nossos dias existem alguns marcos importantes, em 1913 William Coolidge concebe uma variante do tubo de Crookes que ainda hoje (com os devidos aperfeiçoamentos) se usa comumente, as denominadas ampolas de raio X. Com o aparecimento do televisor, na década de 50 de século passado, a fluoroscopia inicia os seus passos na Radiologia. Hoje em dia, a fluoroscopia é amplamente aplicada com um intensificador digital de imagem acoplado. Com o aparecimento dos computadores e a sua aplicação á medicina, também a Radiologia deu um salto gigantesco, em 1966 desenvolvia-se o primeiro Ecógrafo, em 1973 o primeiro Tomógrafo Computadorizado, vulgo TAC. Em 1979 introduz-se a Fluoroscopia Digital, em 80 desenvolve-se a 1ª Ressonância Magnética. Nos anos 90 as aplicações digitais são incorporadas em massa nos sistemas médicos de imagem, com vantagens de redução de dose absorvida pelo doente e menor quantidades de químicos excedentários produzidos para a revelação das películas.

Na década de 90 as técnicas de obtenção de imagem do corpo humano por incorporarem meios que já não têm apenas a radiação x como fonte, é o caso da ecografia que usa as propriedades das ondas sonoras e da Ressonância Magnética, que usa as ondas de rádio, denomina-se agora de Imagiologia em detrimento da clássica Radiologia.

Englobado na Imagiologia teremos então múltiplas modalidades:

Radiologia convencional (rx tórax, ombro, coluna, ortopantomografia, etc)

Radiologia contrastada (clister opaco, trânsito gastro duodenal, urografia endovenosa, etc)

Radiologia Intervenção (biopsias, colocação de arpões, etc)

Mamografia

Densitometria Óssea

Ecografia

Tomografia Computadorizada (TC)

Angiografia

Ressonância Magnética (RM)


O clínico prescritor de um qualquer exame, deve orientar o seu pedido de modo a evitar exposições desnecessárias, que só prejudicam os doentes, e gastos desnecessários, que só aumentam a despesa na saúde. Os dados imagiológicos não devem ser o centro da avaliação do doente, mas sim coadjuvar os dados clínicos. E manda o bom senso que se inicie, na maioria dos casos, o estudo por técnicas menos invasivas e de menor custos e mais acessíveis aos doentes.

A Imagiologia é um Meio Complementar de Diagnóstico e Terapêutica composto por profissionais altamente especializados, nomeadamente Médicos Radiologistas e Neurorradiologista e Técnicos Superiores de Radiologia que em equipe obtêm diagnósticos e nalguns casos efectuam actos terapêuticos, para quem deles se socorra.

sexta-feira, 26 de março de 2010

GESTÃO, CRIATIVIDADE & INOVAÇÃO



O Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa E.P.E. anunciou recentemente o investimento de 3 milhões de euros para a ampliação da actual urgência da Unidade Padre Américo em Penafiel, que recebe mais de 155 mil doentes por ano. Este investimento estava já previsto desde 2007 embora seja de prever que só daqui a mais de um ano esteja completamente concretizado.

Trata-se de uma boa notícia para os utentes que se servem da referida urgência, embora as condições físicas não sejam apenas elas por si só, capazes de melhorar os crónicos problemas do SU de Penafiel do CHTS. Mais importante do que os meios são os profissionais, já aqui referi que será importante criar equipes estáveis de trabalho, capazes de responder eficazmente ao vasto universo populacional que está referenciado para o CHTS.

O que se espera de uma Administração de uma instituição é que esta seja capaz de antever situações críticas e atempadamente procurar a melhor solução. Esta lógica deve nortear quem tem responsabilidades. No caso dos hospitais EPE, soluções que contribuam para o equilíbrio financeiro dos mesmos deve estar presente. Pois de que servem os hospitais serem EPE, de direito privado, se no final do ano existe um buraco de milhões de euros para o Estado tapar? Os responsáveis têm de desenvolver projectos com capacidade de gerar valor de modo a suprir os custos operativos.

Veja-se o caso do Hospital de S. João E.P.E.: um hospital central de grande dimensão, o maior da região Norte, com uma estrutura física com mais de 30 anos, que lentamente é renovado, capaz de competir em condições físicas com os melhores privados. Esta filosofia de renovação aliada á inovação é replicada na procura de sinergias que alavanquem o H.S.João e gerem mais valias para áreas necessitadas.

É o caso da central térmica, que será substituída por uma unidade de co-geração (num consorcio liderado pela SUCH) que para além de poluir bastante menos, gerara energia eléctrica suficiente para alimentar o hospital e vender o excedente á rede eléctrica nacional. Outro exemplo é o da “unidade de compounding” em que será feito o embalamento da medicação com a dosagem exacta requisitada pelo médico, evitando desperdícios. Será gerido por um parceiro da área farmacêutica e poderá produzir para hospitais interessados num raio de 100 kms. Estes são apenas dois exemplos que elucidam bem a dinâmica empreendida pelo conselho de administração do H.S. João em procurar soluções que promovam uma maior eficiência e geradoras de mais valias para o hospital.

Se os hospitais têm como direito que as rege o privado, têm de se soltarem das amarras burocrático-administrativas do anterior modelo de gestão e como qualquer empresa procurar inovar, poupar e gerar mais valias.

Os Hospitais EPE para além de gerarem mais valias em bem estar e saúde para a população que servem, devem também poupar e aplicar convenientemente o (pouco) dinheiro dos contribuintes que financiam, através dos seus impostos as suas actividades.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

REDE NACIONAL DE CUIDADOS CONTINUADOS INTEGRADOS



A Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI) surgiu em 2006, procurando dar uma resposta ao progressivo envelhecimento da população, fruto da diminuição da mortalidade e da natalidade e trata-se de uma parceria entre o Ministério da Saúde e o Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social. Tem por objectivo principal a recuperação da autonomia das actividades de vida diárias da população idosa e dependente, promovendo a funcionalidade, prevenindo, reduzindo e adiando as incapacidades o que contribui para a melhoria da sua qualidade de vida.

Neste momento a rede, está em crescimento tentando cobrir as necessidades territoriais do nosso país e trata-se de um modelo de actuação junto dos utentes inovador, pois congrega esforços de profissionais de saúde e da segurança social.

A acção da RNCCI centra-se num nível intermédio de cuidados de saúde e de apoio social, entre a base comunitária e o internamento hospitalar. Os cuidados continuados integrados são constituídos por:

 1.   Unidades de Internamento

               Unidades de convalescença

               Unidades de média duração e reabilitação

               Unidades de longa duração e manutenção

               Unidades de cuidados paliativos

2. Unidades de Ambulatório

              Unidade de dia e de promoção de autonomia

3. Equipes Hospitalares

              Equipas de gestão de altas

              Equipas intra-hospitalares de suporte em cuidados paliativos

4. Equipas domiciliárias

               Equipes de cuidados continuados integrados

               Equipes comunitárias de suporte em cuidados palitivos


Até ao momento a acção da RNCCI tem-se centrado sobretudo nas unidades de internamento que se articulam directamente com as equipes hospitalares. Os hospitais de agudos querem libertar mais camas enviando os doentes para as unidades de internamento que melhor se adequam á situação da pessoa. A grande maioria das unidades de internamento localizam-se nos hospitais das Misericórdias. Embora instituições privadas também façam parte de RNCCI, como é o caso da Clínica Radelfe no nosso concelho.

As unidades de ambulatório sobrepõem-se com os centros de dia que já existem, duplicando os serviços. As equipes domiciliárias em cuidados continuados integrados são da responsabilidade dos centros de saúde e das equipes de apoio social. Suponho que o proposto não será uma duplicação de serviços (a bem do erário público) mas sim uma integração dos serviços já existentes, não perdendo a sua autonomia mas agora ligados á RNCCI.

As unidades de internamento diferenciam-se pelo tipo de cuidados prestados:

Unidades de convalescença

A unidade de convalescença é uma unidade de internamento, independente, integrada num hospital de agudos ou noutra instituição, se articulada com um hospital de agudos, para prestar tratamento e supervisão clínica, continuada e intensiva, e para cuidados clínicos de reabilitação, na sequência de internamento hospitalar originado por situação clínica aguda, recorrência ou descompensação de processo crónico. Tem por finalidade a estabilização clínica e funcional, a avaliação e a reabilitação integral da pessoa com perda transitória de autonomia potencialmente recuperável e que não necessita de cuidados hospitalares de agudos. Destina-se a internamentos com previsibilidade até 30 dias consecutivos por cada admissão.


Unidades de média duração e reabilitação

A unidade de média duração e reabilitação é uma unidade de internamento, com espaço físico próprio, articulada com o hospital de agudos para a prestação de cuidados clínicos, de reabilitação e de apoio psicossocial, por situação clínica decorrente de recuperação de um processo agudo ou descompensação de processo patológico crónico, a pessoas com perda transitória de autonomia potencialmente recuperável. Tem por finalidade a estabilização clínica, a avaliação e a reabilitação integral da pessoa. O período de internamento na unidade de média duração e reabilitação tem uma previsibilidade superior a 30 e inferior a 90 dias consecutivos. A unidade de média duração e reabilitação pode diferenciar-se na prestação de cuidados clínicos, de reabilitação e sociais a pessoas com patologias específicas.


Unidades de longa duração e manutenção

A unidade de longa duração e manutenção é uma unidade de internamento, de carácter temporário ou permanente, com espaço físico próprio, para prestar apoio social e cuidados de saúde de manutenção a pessoas com doenças ou processos crónicos, com diferentes níveis de dependência e que não reúnam condições para serem cuidadas no domicílio. Tem por finalidade proporcionar cuidados que previnam e retardem o agravamento da situação de dependência, favorecendo o conforto e a qualidade de vida, por um período de internamento superior a 90 dias consecutivos. A unidade de longa duração e manutenção pode proporcionar o internamento, por períodos inferiores, em situações temporárias, decorrentes de dificuldades de apoio familiar ou necessidade de descanso do principal cuidador, até 90 dias por ano.


Unidades de cuidados paliativos

A unidade de cuidados paliativos é uma unidade de internamento, com espaço físico próprio, preferentemente localizada num hospital, para acompanhamento, tratamento e supervisão clínica a doentes em situação clínica complexa e de sofrimento, decorrentes de doença severa e ou avançada, incurável e progressiva, nos termos do consignado no Programa Nacional de Cuidados Paliativos do Plano Nacional de Saúde. As unidades podem diferenciar-se segundo as diferentes patologias dos doentes internados.

Constitui objectivo geral da Rede a prestação de cuidados continuados integrados a pessoas que, independentemente da idade, se encontrem em situação de dependência.

Os cuidados continuados integrados incluem-se no Serviço Nacional de Saúde e no Sistema da Segurança Social, estendem-se por períodos que se prolongam para além do necessário para tratamento da fase aguda da doença e visam:

                • A reabilitação, a readaptação e a reintegração social;

                • A provisão e manutenção do conforto e qualidade de vida, mesmo em situações irrecuperáveis.

Os cuidados paliativos centram-se no alívio do sofrimento das pessoas, na provisão de conforto e qualidade de vida e no apoio às famílias, segundo os níveis de diferenciação consignados no Programa Nacional de Cuidados Paliativos do Plano Nacional de Saúde.



Os objectivos da Rede de Cuidados Continuados Integrados incluem o desenvolvimento de um continuum de cuidados, desde a alta hospitalar até ao domicílio do doente, promovendo a sua autonomia de modo a obter ganhos na sua qualidade de vida.