Este
é mais um lamentável episódio de como se ‘constroem’ pareceres
à medida dos interesses políticos de quem os encomenda. Uma
recorrente técnica desta governação - não só do Ministério da
Saúde - para suporte regras (essencialmente de cortes), adaptar
conceitos (a orçamentos esmagados pela troika), deformar a realidade
(passando ao lado da inovação) e deturpar o conceito de eficiência.
O
parecer do Conselho Nacional da Ética para as Ciências da Vida
(CNECV) passa ao lado da questão essencial: quanto vale a vida
humana?
Este
‘parecer’ enfronha-se em análises circulares e argumentos
redondos sobre o custo/benefício, sempre polémicas num sistema
universal e, acaba por afogar-se em especulações sobre níveis de
custos, à sombra de duvidosas equidades.
As
sugestões de restrição na cobertura (racionamento) enlearam a sua
fundamentação técnica e científica com análises quantitativas.
Deste
‘mix’ não podem, os portugueses, esperar grandes orientações,
nem qualquer equidade. Falta definir – a partir de princípios
éticos – qual a prioridade (para as doenças em causa) dos
critérios utilizados para estabelecer e administrar terapêuticas e
cuidados. E só após esta prévia definição se poderá colocar o
candente problema do orçamento (limitado e em permanente
‘contracção’) do SNS.
Estes
condicionalismos acrescidos de um outro vector - a qualidade de vida
– deverão integrar os critérios de elaboração dos guide-lines
para todo o tipo de patologias e cuidados médicos de âmbito
público.
De
resto, a posição do CNECV ao aceitar emitir um parecer sobre
determinado (e não aleatório) leque de patologias - as que suscitam
um maior esforço financeiro e têm reflexos nos custos operacionais
– aparece, à luz do dia, por motivos ‘pouco’ éticos e nada
explícitos, inquinada ‘ab initio’.
Ao
aceitar pronunciar-se sobre um leque restrito de situações
referente à vida feriu irremediavelmente uma das mais nobres
características éticas: a universalidade.
A
saúde não se conforma facilmente com pragmatismos (económicos e
ideológicos) que frequentemente conflituam com o sensível terreno
da justiça social. Mas, neste momento, defender uma racionalidade na
gestão dos recursos (disponíveis) para a Saúde passa por esperar
encontrar sólidos conceitos doutrinários sobre o Estado Social e a
sua sustentabilidade, reflectindo essas convicções na estruturação
e definição orçamental.
O
que o Ministério da Saúde está a tentar fazer é uma grosseira
inversão desta hierarquia de valores! Quem decide, qual a idade ou
valor de tratamento, a partir do qual já não se tratara um doente?
Quem tem mais valor?
A
Ordem dos Médicos anunciou que vai abrir um processo de averiguação
aos clínicos que assinaram o parecer do Conselho Nacional de Ética.
A
Ordem dos Médicos anunciou que vai abrir um processo de averiguação
aos clínicos que assinaram o parecer do Conselho Nacional de Ética
por considerar que o documento fere o código deontológico da
profissão.
«Assumindo
por inteiro a frontal rejeição do parecer e por considerar que este
fere o código deontológico da Ordem dos Médicos e valores éticos
intemporais, o Conselho Nacional Executivo decidiu solicitar a
abertura de um processo de averiguação aos médicos que assinaram o
parecer do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida
(CNECV)», refere uma nota da Ordem enviada às redações.
O
parecer em causa foi aprovado por unanimidade por todos os membros do
Conselho, que inclui os ex-bastonários da Ordem dos Médicos Pedro
Nunes e Germano de Sousa.
A Ordem classifica como perverso, desumano e perigoso o parecer divulgado na quinta-feira pelo CNECV, que considera existir fundamento ético para que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) promova medidas para conter custos com medicamentos, tentando assegurar uma «justa e equilibrada distribuição dos recursos».
A Ordem classifica como perverso, desumano e perigoso o parecer divulgado na quinta-feira pelo CNECV, que considera existir fundamento ético para que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) promova medidas para conter custos com medicamentos, tentando assegurar uma «justa e equilibrada distribuição dos recursos».
«A
Ordem dos Médicos verifica que todo o parecer é uma tendenciosa
construção que visa tentar justificar eticamente o racionamento em
Saúde, sem limites definidos, o que é uma inultrapassável
contradição ética», refere a nota de imprensa.~~
Para
a Ordem, é «sempre deliberadamente utilizada a palavra
racionamento» e apenas uma vez o termo racionalização: «o que
significa que os subscritores sabem bem a diferença entre
racionamento e racionalização e optaram conscientemente pela
palavra racionamento».
«Todo o parecer é uma tendenciosa construção que visa tentar justificar eticamente o racionamento em saúde, sem limites definidos, o que é uma inultrapassável contradição ética», refere o comunicado.
«Todo o parecer é uma tendenciosa construção que visa tentar justificar eticamente o racionamento em saúde, sem limites definidos, o que é uma inultrapassável contradição ética», refere o comunicado.
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