sexta-feira, 16 de julho de 2010

Radiação Solar



A sobrexposição despreocupada aos raios solares danifica seriamente a pele, mesmo que seja breve. Pode provocar queimaduras, alergias, insolações e, a longo prazo, destrói o património celular, envelhecendo-a. No limite, pode até causar cancro cutâneo. A maioria das pessoas só se lembra de se proteger do sol na praia, mas a verdade é que quando passeamos no campo ou preguiçamos numa esplanada, corremos os mesmos riscos.


Radiação solar é a designação dada à energia radiante emitida pelo Sol, em particular aquela que é transmitida sob a forma de radiação electromagnética. Cerca de metade desta energia é emitida como luz visível na parte de frequência mais alta do espectro electromagnético e o restante na banda do infravermelho próximo e como radiação ultravioleta.

Quando se fala de radiação ultravioleta (UV) fala-se, sobretudo, da radiação UVB e UVA, já que a radiação UVC (extremamente agressiva para a pele) é filtrada na sua maioria pela camada de ozono.


A radiação ultravioleta (UV) faz parte do espectro da radiação solar. A chamada radiação UV-B é a principal responsável pela formação de queimaduras na pele, cancro da pele, cataratas e muitos outros efeitos na saúde humana. A radiação solar UV-B que incide na atmosfera da Terra é absorvida principalmente pelo ozono estratosférico. No entanto, existem outros componentes atmosféricos que podem contribuir também para uma atenuação (por absorção e/ou por difusão) da radiação UV-B na atmosfera como as nuvens, o aerossol atmosférico e até o próprio ar.

A radiação UVB atinge as camadas superficiais da pele, nomeadamente a epiderme e derme superficial e é responsável pela vermelhidão, queimaduras solares e pela indução a médio e longo prazo de cancros de pele, sobretudo os carcinomas basocelular e espinocelular. A radiação UVA, que antigamente se pensava não ser tão agressiva, é hoje reconhecida pelo poder de penetração mais profundo na pele até à derme média e é a principal radiação responsável pelo fotoenvelhecimento precoce da pele, em particular pelas rugas e lentigos (‘manchas da idade’) sendo, provavelmente, das radiações mais importantes, não só na indução de carcinomas, sobretudo de melanoma (o cancro de pele mais temível, que se não for detectado e tratado precocemente poderá ser mortal).

O cancro de pele é geralmente desencadeado por lesões causadas pelo Sol.

Existem vários tipos de cancro da pele agrupados em dois grandes grupos:

melanoma - é o mais raro mas é responsável por 3 em cada 4 mortes por cancro de pele.



não-melanoma - é o mais comum e raramente pode causar a morte do paciente.

O último grupo inclui os carcinomas menos perigosos, mas que se podem tornar mais agressivos se não forem tratados precocemente. O cancro da pele pode atingir pessoas de todas as idades, mas é menos frequente nas crianças.

Estão mais predispostas aos cancros da pele:

• Pessoas cronicamente expostas ao Sol, como os trabalhadores do campo ou que trabalham ao ar livre, sob a radiação solar;

• Pessoas que tiveram inúmeras queimaduras solares/escaldões ao longo da vida principalmente se estas ocorreram em idades jovens (até aos 16 anos).

Como se faz prevenção do cancro de pele?

 evitar excesso de exposição ao Sol, especialmente entre as 11-16h;

 utilizar sempre protector solar adequado ao seu tipo de pele e que proteja dos raios nocivos, mesmo depois de já estar bronzeado;

 usar vestuário, chapéu e óculos de sol, principalmente entre as 11-16h;

 evitar que crianças e adolescentes com menos de 16 anos tenham queimaduras solares/escaldões, pois estes aumentam o risco de desenvolver cancro da pele em idades mais avançadas.

Os filtros solares (vulgo protectores solares) são substâncias destinadas a proteger a pele do sol (das radiações ultravioletas A e B). A curto prazo, eles protegem a pele de queimaduras e alergias solares e, a longo prazo, de envelhecimento e cancro de pele. O uso adequado de filtros solares implica:

- Aplicação abundante e uniforme 30 minutos antes da exposição solar.

- Reaplicação frequente (a cada 2 horas e mais frequente após exercícios físicos, mergulhos e transpiração excessiva).

- Não esquecer dos protectores labiais e óculos escuros.

Comecem por efectuar exposições ao sol de 15 a 20 minutos, que podem ser no jardim ou varanda, mas evitando os horários críticos. Em particular, das 12 às 16 horas, em que há forte incidência dos ultravioleta. A exposição ao sol deve ser precedida da aplicação de protector solar e os índices de protecção devem ser elevados.

Embora o bronzeado costume ser considerado um sinal de boa saúde e de uma vida activa e atlética, realmente constitui em si mesmo um perigo para a saúde. Qualquer exposição à luz ultravioleta A ou B pode alterar ou danificar a pele. A exposição prolongada à luz natural ou à artificial, que se usa nos centros de estética, podem provocar lesões crónicas na pele. Não existe um bronzeado seguro.

Nas férias, relaxe, brinque com os seus filhos, divirta-se, aproveite se puder das belezas do nosso País, mas protega-se.

in Tribuna Pacense a 15.07.2010

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Política de Saúde à Portuga

Assistem-se nestes últimos tempos a episódios caricatos na Saúde, em estilo zig zag., senão atentemos a estes episódios:

Num primeiro momento a ARS de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) comunica ao Setubalenses que ficariam privados das urgência pediátricas durante o verão nos períodos das 0 horas ás 9h da manhã. Dias depois dá o dito pelo não dito, apresentando os argumentos de que no outro momento não dispunha. Onde está a responsabilidade dos dirigentes que assumem estes erros? Ou neste momento da vida pública vale tudo?

No INEM anuncia-se o corte na aquisição de helicópteros e no atendimento especializado por psicólogos nos CODUs. E as populações que aceitaram fechar os seus serviços de atendimento permanente mas que em contra partida teriam uma rede de cuidados de emergência pré-hospitalar funcionante e com cobertura territorial? Como ficam?! Isoladas e sem cuidados de saúde! Daqui a dias o Ministério da Saúde poderá informar que as coisas não são bem assim contrapondo as acções da direcção do INEM ou até anunciando uma qualquer compensação.

Assim vai a nossa Política de Saúde, sem um rumo determinado, ao sabor das pressões das corporações e da dita crise. Sem uma linha orientadora, ora uma acção aqui outra ali, uma outra acoli... Como se vivesse noutra galáxia o Ministério da Saúde deambula, incompreensível e erraticamente, a reboque dos acontecimentos e das notícias... Ora manda cortar nos toalhetes, ora decide aumentar os enfermeiros, ora manda fechar urgências pediátricas, ora decide aumentar os médicos, ora decide abrir novamente urgências pediátricas, ora manda cortar nos medicamentos nos hospitais, ora derrete milhões por erros informáticos nas farmácias e nos medicamentos gratuitos a rodos, ora manda cortar nas horas extraordinárias, ora continua a não cortar nas centenas de viagens ao estrangeiro feitas pelos centenas de dirigentes (Autoridade Central do Sistema de Saúde, ARS, INEM, Instituto da Droga, etc ,etc…).

Subitamente verifica-se - por inúmeras declarações públicas - que quase todos os Concelhos de Administração dos hospitais, tinham na manga planos de contingência contra o desperdício.

Na verdade, segundo foi tornado público, os prejuízos dos hospitais com gestão empresarial, em 2009 dispararam para 295 milhões de euros, um aumento de 40% em relação a 2008.

Tal descontrolo deveria ter ditado outras consequências: Não chega obrigar os Concelhos de Administração a medidas de combate ao desperdício..., algumas delas a roçar o ridículo.

O plano de poupança do Ministério da Saúde, endossado aos hospitais com carácter de urgente, dificilmente responde à gravidade da crise financeira dos mesmos, para não falar de coisas mais genéricas como seja a sustentabilidade global do SNS.

Muito menos as medidas de contenção doméstica, avulsas, que múltiplos hospitais dizem já ter planeado, numa espécie de desenfreada competição interna, do tipo infantil “as minhas são melhores do que as tuas...”, cujas consequências podem ser dramáticas em termos de eficiência... e da qualidade dos serviços a prestar aos utentes.

Se acaso entrarmos pela via da luta pela sobrevivência - a todo o custo e a qualquer preço - dos actuais hospitais em flagrante descontrolo da situação financeira, melhor seria , para preservar os utentes e as instituições do SNS, começar pelo racional, i.e., remodelar profundamente os Concelhos de administração dos hospitais, repensar o modelo de gestão empresarial e de governação clínica que, ao longo do tempo, se mostrou tão ineficiente e tão pouco ágil...

Este seria o momento oportuno para lançar medidas e reformas de fundo que fortalecessem o nosso SNS, garantindo-lhe sustentabilidade como estão a fazer por exemplo os ingleses com o seu sistema de saúde (NHS).

in Tribuna Pacense a 02.07.2010

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Unidade de Saúde Familiar

O Sistema de Saúde em Portugal engloba múltiplos e variados agentes (públicos e privados). O primeiro deve ser o Centro de Saúde (CS). A acção política tem tentado re-centrar os Cuidados de Saúde Primários, tentando modificar o seu modelo de funcionamento, de modo a dar as respostas que as populações necessitam e cada vez mais exigem.

Uma dessas alterações, e das mais bem conseguidas, são as Unidades de Saúde Familiares (USF). As USF são pequenas unidades operativas dos CS com autonomia funcional e técnica, que contratualizam objectivos de acessibilidade, adequação, efectividade, eficiência e qualidade, e que garantem aos cidadãos inscritos uma carteira básica de serviços.

Nem todas as USF estarão no mesmo plano de desenvolvimento organizacional. A diferenciação entre os modelos de USF (A ou B) é resultante do grau de autonomia organizacional, da diferenciação do modelo retributivo e de incentivos dos profissionais.

Modelo A. Este modelo corresponde na prática, a uma fase de aprendizagem e de aperfeiçoamento do trabalho em equipa de saúde familiar, ao mesmo tempo que constitui um primeiro contributo para o desenvolvimento da prática da contratualização interna. É uma fase indispensável nas situações em que esteja muito enraizado o trabalho individual isolado e/ou onde não haja qualquer tradição nem práticas de avaliação de desempenho técnico-científico em saúde familiar.

Modelo B. Este modelo é o indicado para equipas com maior amadurecimento organizacional onde o trabalho em equipa de saúde familiar seja uma prática efectiva e que estejam dispostas a aceitar um nível de contratualização de patamares de desempenho mais exigente.

As USF provam que equipes multi-profissionais podem organizar-se, contratualizar uma carteira de serviços com a ARS e ser premiadas pelo cumprimento dos objectivos estabelecidos. Pelo acompanhamento dos diferentes objectivos do projecto é possível avaliar, e premiar os bons e penalizar os que o não são. Esta é que é a verdadeira questão. Separar o trigo do joio.

A maioria dos serviços públicos não estão organizados desta forma, todos têm o seu posto de trabalho, as suas funções, mas a contratualização interna não existe ou tarda a ser efectivada. Quando muito, existe alguém (o chefe!) que avalia a prestação do colaborador numa determinada função, para mais tarde este poder subir de categoria, mas trata-se de uma avaliação dentro de parâmetros muito generalizados. E não em objectivos pré-estabelecidos, exequíveis e acessíveis, avaliados por terceiros externos ao serviço, como nas USF.

Os utentes das USF são os primeiros a reconhecer que este modelo de organização produz melhores resultados, são melhor atendidos e com mais rapidez que no modelo tradicional de CS. Os doentes via telefone agendam com facilidade uma consulta médica regular ou mesmo urgente com o seu médico de família. E em caso de falha de algum profissional, a equipe intersubstitui-se, tentanto assegurar, da melhor forma possível os cuidados necessários (sejam de enfermagem ou de medicina).

Os profissionais de saúde estão mais motivados, pois gerem os objectivos em saúde localmente, com inegáveis resultados para as comunidades que servem. Em duas palavras: descentralizou-se a responsabilidade para um nível local, e atribui-se prémios por cumprimento do contrato programa / carteira de serviços. E os resultados estão á vista, cada vez mais o numero de USF aumenta pelo País fora.



Poderá ser este um dos caminhos do SNS, e até de outros serviços do Estado, contratualizar dentro de cada instituição, serviço a serviço, uma carteira de serviços exequíveis, acessíveis de modo a motivar os profissionais e premiando quem atinge os resultados pretendidos.

in Tribuna Pacense a 18.06.2010

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Contenção de Despesas

Este ano será particularmente exigente no campo orçamental na área da saúde; O Ministério da Saúde prepara a regulamentação do diploma das EPE (entidades públicas empresariais) que trará novas regras de monitorização do desempenho dos hospitais. Para breve está também prevista a divulgação da legislação da avaliação dos administradores hospitalares.

A tutela está a preparar a regulamentação do diploma que legisla sobre as EPE e que incluirá «regras de boa gestão» que devem ser seguidas por quem está à frente destes organismos. O anúncio foi feito por Óscar Gaspar, secretário de Estado da Saúde, à margem da assinatura dos contratos-programa dos hospitais para 2010, na sede da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT), que decorreu no passado dia 17 de Maio. O responsável explicou aos jornalistas que o despacho está a ser preparado entre os Ministérios das Finanças e da Saúde, e «deve sair este ano». Esse diploma virá assim, completar a legislação referente às EPE e resulta da necessidade de serem encontradas «novas medidas de monitorização da despesa e da produção».

Por outro lado, o despacho que já está pronto e só aguarda as assinaturas de responsáveis dos Ministérios da Saúde e das Finanças é o que diz respeito à avaliação dos administradores hospitalares. «Estamos prontos para avançar», adiantou o secretário de Estado, garantindo aos jornalistas que haverá «notícias sobre isso nos próximos dias».

È certo e sabido, que por vezes as administrações hospitalares são escolhidas mais pela sua cor partidária que pela sua competência. Também neste campo se deve separar o trigo do joio, e premiar quem bem gere. O inverso também deverá ser aplicado, pois que moralização dos profissionais teremos se, se reconduz um dirigente que consecutivamente não consegue melhorar os resultados da sua instituição!.

Neste momento os concelhos de administração dos hospitais estão sob uma forte pressão para conterem as suas despesas. Mas a maioria da despesa em saúde, é feita pela caneta do médico que poderá controlar melhor estes custos.

A sensibilização da classe médica, com formação específica de base sobre economia e gestão em saúde, ao longo da sua carreira deverá estar presente, de modo a que se procure sempre o equilíbrio entre o custo e o benefício. Muitas formas (e fórmulas) se tem implementado, por exemplo para conter a despesa de medicamentos, mas ao fim de algum tempo lá chovem notícias sobre a crescente despesa em medicamentos.

O modelo organizacional em que funcionam as USF tem vindo a demonstrar uma crescente racionalização dos MCDT. Outras áreas poderão também ser passíveis de uma maior contenção, mantendo a satisfação dos utentes a eles adstritos e dos profissionais que lá exercem a sua actividade. É o que se vai passando pelo país fora, onde as USF têm vindo a ganhar terreno poupando milhares de euros ao SNS, com Qualidade e um conceito de saúde de proximidade e disponibilidade.

Os cortes de financiamento não poderão ser cegos, impostos de qualquer modo, mas atendendo às particularidades de cada região. Deveriam ser os próprios responsáveis locais a propor as poupanças possíveis (directores e responsáveis de serviço, de baixo para cima). Quem sabe melhor onde cortar despesas na minha casa, o meu vizinho? Ou o meu chefe? Ou eu próprio, que conheço a minha casa melhor do que ninguém?

Se na Saúde nos concentrasse-mos sobretudo na prevenção e promoção da saúde e hábitos saudáveis, terímos a longo prazo uma diminuição dos gastos em saúde. Será este o caminho:

Educação para a Saúde. Hábitos e Estilos de vida Saudáveis. Prevenção, Educação.

in Tribuna Pacense 2.06.2010

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Propostas para Poupar uns M€

1. Aprovar regime de 40 horas semanais de trabalho, universal para todos os regimes e carreiras do Estado. Em tempo de crise, sem qualquer acréscimo de remuneração. Uniformização das regras sociais: público e privado com os mesmos direitos. Professores, juízes, carpinteiros, médicos, administradores, assistentes operacionais, operários, deputados, vereadores, gestores, etc todos pela mesma bitola - 40 horas.

2. Separar no acto de triagem do SU os episódio de urgência e não urgência, permitindo o reencaminhamento (com definição de prazos) para a consulta aberta do Centro de Saúde ou para qualquer uma das consultas externas do Hospital. Reduzir-se-iam imenso às tão badalas horas extras (médicas) e as nossas urgências serias mais urgências…

3. Dar um papel mais central aos Enfermeiros na «Medicina Preventiva» nos Cuidados de Saúde Primários. O estímulo que isto representaria, e a poupança em horas de trabalho aos médicos, levaria a uma poupança descomunal, e libertaria mais clínicos para a área «Curativa». Acabaria também esta mitológica e crónica falta de médicos. (De que adianta saber supostamente mais, sem tempo para fazer ?!!?).

4. Dar poder organizativo e remuneratório a estruturas intermédias de gestão, como por ex. os Centros de Responsabilidade Integrados (CRI), em contexto hospitalar; Agrupamentos de Centros de Saúde (ACES) nos Cuidados de Saúde Primários.

5. Extinguir a ADSE e outros sub-sistemas, porque que motivo uma franja de 700 000 mil têm determinados regalias e os restantes, mais de 9 milhões, têm a Segurança Social? Se todos os anos a ADSE soma prejuízos…

6. Andamos todos incomodados com a falta de concorrência nos combustíveis, mas pactuamos silenciosamente com a completa, total e absoluta ausência de concorrência entre farmácias. Ou alguém consegue comprar o brufen mais barato na farmácia X?

7. Cada utente ter, em vez do cartão de saúde, um qualquer sistema de armazenamento portátil de informação, onde ficassem registados actos médicos/cirúrgicos prévios, medicação e exames complementares. De modo a evitar repetições, desperdícios e em última análise um mais rápido acesso a um histórico em caso de urgência

8. Regionalmente criação de uma Unidade Local de Saúde do Tâmega e Sousa, de modo a obter ganhos em saúde, ganhos de acessibilidade, ganhos de produtividade e integração efectiva de cuidados primários com os hospitalares, pela via do factor escala e eficiência. A gestão integrada dos Centros de Saúde e da Unidade Hospitalar de referência local, Unidade Local de Saúde (ULS), que vão sendo implementadas pelo País, tem demonstrado interessantes ganhos de eficiência e de acessibilidades para as populações abrangidas. È tempo de esta região renovar-se também nos modelos organizacionais.

Tempos Decisivos

Iniciou em Maio, em plenas funções, um novo Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa E.P.E. dirigido pelo Dr. José Luís Catarino, ex-presidente do conselho de administração do Hospital de Valongo e tido como próximo do Sr. Secretário de Estado da Saúde Dr. Manuel Pizarro. Também um ilustre pacense tem agora lugar nessa administração o Dr. Paulo Sergio Barbosa. Faço votos que estas particularidades sejam uma mais-valia para a nossa região, que tendo dirigentes locais e com boas relações com o poder central, o acesso ao bem Saúde por parte das populações abrangidas seja efectiva e melhore, em prol de um bem comum.

Alguém disse que, nós portugueses, substituímos o conceito de medicina baseada na evidência para o de medicina baseada na urgência. É neste sector que se reflecte a nossa incapacidade organizativa em matéria de cuidados de saúde, nomeadamente os de prevenção e promoção, ditos primários. A urgência do hospital é o último reduto de quem necessita de cuidados assistenciais e a eles não consegue aceder por outra via, é nele que se espelha a ineficiência do sistema de saúde. Ao SU acorrem doentes que não conseguem resposta atempada do seu médico de família; os que não conseguem aceder a uma consulta de especialidade de outra forma; os observados/transferidos em unidades privadas (algumas com urgência aberta e sem internamento); e, finalmente, os que verdadeiramente a ele deveriam recorrer: os acidentados ou acometidos de doença súbita com risco de vida imediato.

Nos países com medicina mais (e melhor) organizada, são estes últimos que praticamente recorrem ao SU. È o caso dos nossos vizinhos espanhóis. Assim, as equipas médicas nas urgências são reduzidas tendo como papel principal o diagnóstico imediato da situação e a estabilização dos parâmetros vitais. Uma vez feito o estadiamento clínico, é aos serviços internos do hospital que compete tratar o doente em causa. Em Portugal, não é bem assim que se passa. Os SU funcionam quase como um hospital dentro de próprio hospital, o que leva a um frequente aumento dos quadros profissionais ou, última moda, a contratar médicos tarefeiros, para responder às necessidades crescentes do SU.

Neste contexto não admira que os gastos dos hospitais e do sector da saúde não parem de crescer.

Os tempos são de crise, todos a estamos a sentir, mas para quem tem a responsabilidade de mudar o rumo do país, existem opções que poderão ser decisivas e comprometedoras para as gerações vindouras. Também a Saúde poderá dar um contributo para a sociedade pela via do combate ao desperdício e pela via da promoção de boas prácticas em Saúde. Procurando activamente soluções inovadores para os problemas e ou mesmo tempo, sejam geradoras de mais-valias para áreas necessitadas.

A título de exemplo aqui ficam algumas ideias. Porque não separar no acto de triagem do SU os episódio de urgência e não urgência, permitindo o reencaminhamento (com definição de prazos) para a consulta aberta do Centro de Saúde ou para qualquer uma das consultas externas do Hospital. Reduzir-se-iam imenso às tão badalas horas extras (médicas) e as nossas urgências serias mais urgências. Dar poder organizativo e remuneratório a estruturas intermédias de gestão, como por ex. os Centros de Responsabilidade Integrados (CRI), em contexto hospitalar; Agrupamentos de Centros de Saúde (ACES) nos Cuidados de Saúde Primários. Promover um mercado livre nas farmácias, andamos todos incomodados com a falta de concorrência nos combustíveis, mas pactuamos silenciosamente com a completa, total e absoluta ausência de concorrência entre farmácias. Ou alguém consegue comprar o brufen mais barato na farmácia X? Cada utente ter, em vez do cartão de saúde, um qualquer sistema de armazenamento portátil de informação, onde ficassem registados actos médicos/cirúrgicos prévios, medicação e exames complementares. De modo a evitar repetições, desperdícios e em última análise um mais rápido acesso a um histórico em caso de urgência.

Por fim uma solução para a nossa região, a ser ponderada por esta nova Administração do CHTS: criação de uma Unidade Local de Saúde do Tâmega e Sousa, de modo a obter ganhos em saúde, ganhos de acessibilidade, ganhos de produtividade e integração efectiva de cuidados primários com os hospitalares, pela via do factor escala e eficiência. A gestão integrada dos Centros de Saúde e da Unidade Hospitalar de referência local - Unidade Local de Saúde (ULS) - que vão sendo implementadas pelo País, têm demonstrado interessantes ganhos de eficiência e de acessibilidades para as populações abrangidas.

Por que razão os mais de 500 000 habitantes do Tâmega e Sousa não têm um melhor acesso aos cuidados de saúde? Não será possível mudar este rumo, Inovando? Gerando mais-valias nesta cadeia de valor que são os cuidados em saúde.

O CHTS poderá estudar as soluções implementadas pelo País e concretizar a que melhor se adeque às características intrínsecas na nossa região. De modo a melhorar o acesso á saúde, prevenindo ao invés de curar, uma vez que aí o custo é bem menor para todos, utente e sociedade. A chave destes processos está na prevenção e planeamento.

in Tribuna Pacense a 21.05.2010

domingo, 9 de maio de 2010

IMAGIOLOGIA III

Os progressos verificados ao longo dos anos na Imagiologia sempre estiveram intimamente ligados ou potenciaram o desenvolvimento ocorrido noutras áreas da medicina. Esse facto foi determinante para a melhoria do conhecimento das patologias do ser humano. Basta pensar na mudança espectacular da prática médica operada através da divulgação da radiografia simples, sem a qual não teria sido possível caracterizar as diversas situações patológicas que atingem o esqueleto, das mais complexas até às mais simples, como por são as do foro traumático e assim estabelecer as bases correctas do seu tratamento.

Ainda no que diz respeito à cooperação da Imagiologia com outras especialidades para além da referência feita à radiologia simples, pode-se considerar que, até ao presente, existiram mais outros dois momentos igualmente cruciais nesta cooperação, coincidentes com a invenção e rápida difusão da Ecografia, TAC e RM. Apesar destes constituírem os marcos fundamentais, a evolução tecnológica da imagem aplicada ao corpo humano tem-se mantido em constante desenvolvimento facilitando-nos múltiplos processos de estudo das patologias que, ultrapassando os aspectos puramente morfológicos, já nos fornecem dados de ordem fisiopatológica cujo interesse é evidente.

Se os referidos avanços técnicos da Imagiologia trouxeram e continuam a trazer, vantagens indiscutíveis podem, quando não devidamente utilizados, suscitar alguns inconvenientes que convém mencionar e dos quais nos devemos precaver. Estes inconvenientes resultam de não se respeitarem as regras de actuação inerentes, impostas pelas limitações e potencialidades que lhes são características.

Assim, o aperfeiçoamento das Técnicas de Imagiologia aliada à sua facilidade de execução, tornando-as cada vez menos invasivas, tem produzido imagens de grande fidelidade e definição cuja novidade tem levado à sua entusiástica, difundida e, por vezes, indiscriminada obtenção. Como além disso, os médicos especialistas que manipulam estas técnicas raramente têm a oportunidade ou possibilidade de fazer uma exploração clínica completa dos respectivos doentes, e não recebem, na maioria das vezes, qualquer espécie de indicação útil sobre as dúvidas que se pretendem ver esclarecidas naquele caso concreto, acabam por se circunscrever à analise e interpretação pura da imagem nos relatórios escritos do exame efectuado.

Desta forma se vai acumulando uma quantidade de informação, aliás dispendiosa, cuja utilidade prática pode, nalguns casos, ser duvidosa e enganadora exigindo uma avaliação crítica do seu real significado patológico, avaliação essa que só é possível fazer conjugada com os respectivos dados clínicos.

Por outro lado, por exemplo a Ortopedia, que possuí como característica intrínseca da dinâmica do seu raciocínio clínico, a aproximação imediata ao diagnóstico baseada fundamentalmente na história e observação cuidadas, com preferência pela Imagiologia como auxiliar de inestimável valor na referida dinâmica, ao ser-lhe fornecida neste campo uma informação de alta qualidade técnica, corre o risco, como tantas vezes acontece de desprezar a sua metodologia tradicional e fixar-se também na imagem, sem ponderar convenientemente a sua correlação clínica. A consequência inevitável será estabelecer uma orientação terapêutica desajustada, com grande probabilidade de vir a ser ineficaz, senão prejudicial, para o doente.

Estas considerações demonstram a relevância e necessidades dos dados clínicos para uma correcta interpretação das diferentes modalidades de imagem das estruturas osteoarticulares.

Numa época e cultura propensa ao imediatismo das sensações produzidas em detrimento da percepção especulativa, a Imagiologia possui todos os atributos que a tornam susceptível, quando mal aplicada e utilizada, de exercer uma influência dominadora excessiva na orientação clínica de grande parte das situações, com os incovenientes já assinalados. Por isso nunca será demais repetir que a imagem deve estar subordinada e tem de ser analisada de acordo com o quadro clínico presente e não o inverso.

Isto exige da parte do clínico um conhecimento correcto das possibilidades da Imagiologia que, ao serem potenciadas pelos dados clínicos, obrigam-no a partilha-los com os colegas que manipulam essas técnicas, o que supõe manter com eles um constante diálogo. Só desta forma será possível pedir e executar os exames mais adequados à situação patológica que se pretende estudar, evitando atrasos condenáveis no diagnóstico e respectiva terapêutica a instituir, para além das desnecessárias perdas de tempo e de gastos excessivos que doutra forma se infligem aos doentes e às instituições onde são assistidos.

Um exemplo clássico de uma actuação errônea nesta matéria retirado da prática clínica diária, é-nos dado pelo doente na sua primeira crise de lombalgia pura, cujo único exame complementar de diagnóstico que lhe mandaram fazer é um TAC da coluna lombar. Esta situação não é infrequente e levanta de imediato a suspeita de que o doente não foi provavelmente, observado (para já não falar daqueles doentes que são os primeiros a exigirem o TAC sem o qual se sentem defraldados e mal atendidos). Mal ele se sentou frente ao médico e referiu a sua dor lombar é-lhe entregue o respectivo pedido do exame cujo prestígio, como elemento decisivo do diagnóstico, admite sem reservas, por se encontrar larga e erroneamente difundido na generalidade do público. Se reparar-mos, conforme está descrito, que cerca de 20% das alterações detectadas neste tipo de exame são de significado patológico duvidoso ou não têm correspondência clínica, que a lombalgia sendo um sintoma mais frequente tem múltiplas causas e um componente funcional muito importante impossível de detectar por este meio, fica bem ilustrado o somatório de erros que se podem acumular quando, para o diagnóstico de uma simples lombalgia, nos baseamos apenas no referido exame.

Um outro cenário paralelo e também frequente é o daquele doente que ocorre à consulta visivelmente ansioso porque nas múltiplas radiografias do esqueleto, devido a umas vagas queixas dolorosas poliarticulares, os respectivos relatórios (por eles lidos atentamente) enumeram minuciosamente uma série de anomalias. Nestas tenta desesperadamente encaixar as suas queixas e por vezes até inventa, inconscientemente, outras que satisfaçam essa pretensão, subvertendo o seu relato de sintomatologia que deve ser cuidadosamente analisado e desmontado pelo especialista, a fim de evitar enganos grosseiros de diagnóstico. Aqui o problema reside no definir o que se entende como padrões de anormalidade de determinadas situações, de modo a não tomar por patológicas imagens que correspondem por exemplo ao envelhecimento natural das estruturas esqueléticas. Isto revela mais uma vez a importância da análise das imagens com base na história e a observação clínica dos respectivos doentes.


Muitos outros exemplos poderíamos ainda dar de situações idênticas cuja conclusão a tirar, é que não será possível do ponto de vista patológico, fazer uma interpretação dessas imagens considerada correcta fora do contexto clínico das mesmas ou construir uma hipótese de diagnóstico com base exclusivamente nos respectivos dados imagiológicos.

As considerações feitas revelam a necessidade imperiosa do diálogo clínico-imagiológico sem o qual não será possível estabelecer o diagnóstico exacto e instituir a terapêutica adequada.


in Tribuna Pacence a 07.05.2010