quinta-feira, 20 de maio de 2010

Tempos Decisivos

Iniciou em Maio, em plenas funções, um novo Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa E.P.E. dirigido pelo Dr. José Luís Catarino, ex-presidente do conselho de administração do Hospital de Valongo e tido como próximo do Sr. Secretário de Estado da Saúde Dr. Manuel Pizarro. Também um ilustre pacense tem agora lugar nessa administração o Dr. Paulo Sergio Barbosa. Faço votos que estas particularidades sejam uma mais-valia para a nossa região, que tendo dirigentes locais e com boas relações com o poder central, o acesso ao bem Saúde por parte das populações abrangidas seja efectiva e melhore, em prol de um bem comum.

Alguém disse que, nós portugueses, substituímos o conceito de medicina baseada na evidência para o de medicina baseada na urgência. É neste sector que se reflecte a nossa incapacidade organizativa em matéria de cuidados de saúde, nomeadamente os de prevenção e promoção, ditos primários. A urgência do hospital é o último reduto de quem necessita de cuidados assistenciais e a eles não consegue aceder por outra via, é nele que se espelha a ineficiência do sistema de saúde. Ao SU acorrem doentes que não conseguem resposta atempada do seu médico de família; os que não conseguem aceder a uma consulta de especialidade de outra forma; os observados/transferidos em unidades privadas (algumas com urgência aberta e sem internamento); e, finalmente, os que verdadeiramente a ele deveriam recorrer: os acidentados ou acometidos de doença súbita com risco de vida imediato.

Nos países com medicina mais (e melhor) organizada, são estes últimos que praticamente recorrem ao SU. È o caso dos nossos vizinhos espanhóis. Assim, as equipas médicas nas urgências são reduzidas tendo como papel principal o diagnóstico imediato da situação e a estabilização dos parâmetros vitais. Uma vez feito o estadiamento clínico, é aos serviços internos do hospital que compete tratar o doente em causa. Em Portugal, não é bem assim que se passa. Os SU funcionam quase como um hospital dentro de próprio hospital, o que leva a um frequente aumento dos quadros profissionais ou, última moda, a contratar médicos tarefeiros, para responder às necessidades crescentes do SU.

Neste contexto não admira que os gastos dos hospitais e do sector da saúde não parem de crescer.

Os tempos são de crise, todos a estamos a sentir, mas para quem tem a responsabilidade de mudar o rumo do país, existem opções que poderão ser decisivas e comprometedoras para as gerações vindouras. Também a Saúde poderá dar um contributo para a sociedade pela via do combate ao desperdício e pela via da promoção de boas prácticas em Saúde. Procurando activamente soluções inovadores para os problemas e ou mesmo tempo, sejam geradoras de mais-valias para áreas necessitadas.

A título de exemplo aqui ficam algumas ideias. Porque não separar no acto de triagem do SU os episódio de urgência e não urgência, permitindo o reencaminhamento (com definição de prazos) para a consulta aberta do Centro de Saúde ou para qualquer uma das consultas externas do Hospital. Reduzir-se-iam imenso às tão badalas horas extras (médicas) e as nossas urgências serias mais urgências. Dar poder organizativo e remuneratório a estruturas intermédias de gestão, como por ex. os Centros de Responsabilidade Integrados (CRI), em contexto hospitalar; Agrupamentos de Centros de Saúde (ACES) nos Cuidados de Saúde Primários. Promover um mercado livre nas farmácias, andamos todos incomodados com a falta de concorrência nos combustíveis, mas pactuamos silenciosamente com a completa, total e absoluta ausência de concorrência entre farmácias. Ou alguém consegue comprar o brufen mais barato na farmácia X? Cada utente ter, em vez do cartão de saúde, um qualquer sistema de armazenamento portátil de informação, onde ficassem registados actos médicos/cirúrgicos prévios, medicação e exames complementares. De modo a evitar repetições, desperdícios e em última análise um mais rápido acesso a um histórico em caso de urgência.

Por fim uma solução para a nossa região, a ser ponderada por esta nova Administração do CHTS: criação de uma Unidade Local de Saúde do Tâmega e Sousa, de modo a obter ganhos em saúde, ganhos de acessibilidade, ganhos de produtividade e integração efectiva de cuidados primários com os hospitalares, pela via do factor escala e eficiência. A gestão integrada dos Centros de Saúde e da Unidade Hospitalar de referência local - Unidade Local de Saúde (ULS) - que vão sendo implementadas pelo País, têm demonstrado interessantes ganhos de eficiência e de acessibilidades para as populações abrangidas.

Por que razão os mais de 500 000 habitantes do Tâmega e Sousa não têm um melhor acesso aos cuidados de saúde? Não será possível mudar este rumo, Inovando? Gerando mais-valias nesta cadeia de valor que são os cuidados em saúde.

O CHTS poderá estudar as soluções implementadas pelo País e concretizar a que melhor se adeque às características intrínsecas na nossa região. De modo a melhorar o acesso á saúde, prevenindo ao invés de curar, uma vez que aí o custo é bem menor para todos, utente e sociedade. A chave destes processos está na prevenção e planeamento.

in Tribuna Pacense a 21.05.2010

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