Os portugueses têm como marca identitária fundamental a tolerância e a resignação. Durante séculos, nos diferentes momentos da nossa história vemos registo dessa temperança e ponderação ainda que, muitas vezes, disfarçada por uma revolta interior marcada pela ironia e pelo azedume. Talvez assim se explique a capacidade do povo em resistir à agressão de que tem vindo a ser vítima nos últimos tempos. Com efeito um grupo de “rapazolas” investidos em funções governativas descobriu estar legitimado para dar lições de moral sobre tudo e mais alguma coisa. Patética circunstância tendo em conta a biografia de tais personagens, suas histórias de vida e grupos de “amigos”. O melhor exemplo tem-nos sido dado pela persistente alusão à putativa circunstância de termos andado a viver acima das nossas possibilidades. Vindo de quem vêm os reparos o mínimo que podemos esboçar será um esgar de sorriso intrépido e complacente.
Na saúde também vão surgindo alguns apontamentos de humor que merecem destaque. Deixamos aqui alguns exemplos em jeito de balanço de final de ano com desejos expressos para o Novo Ano de 2013:
- Resolver o problema dos gestores instalados (há muitos anos) que descobrem (subitamente) problemas graves de absentismo e de produtividade que não hesitam em lançar anátemas populistas sobre os profissionais que tutelam.
- Esperar uma posição técnica e firme por parte da DGS relativamente ao “regabofe” comercial da “indústria” das cesarianas no setor privado da saúde.
- Descobrir a razão da destruição do programa de transplantação em Portugal.
- Descobrir como podem os portugueses partir para os “auto-cuidados” preventivos quando, em 2012, ocorreu o maior corte nos domínios da saúde pública e da promoção da saúde.
- Deixar de utilizar, politicamente, os “casos de polícia” para justificar o continuado agravamento das condições de acesso ao medicamento.
- Assumir que não haverá nenhuma reforma hospitalar ou das urgências dignas desse nome nem em 2013 nem em 2014.
Com o ano mais difícil das nossas vidas pela frente, o SNS continuará a sofrer, no próximo ano, rudes cortes de financiamento. Segundo a estratégia do governo de fazer saltar os utentes com melhores rendimentos para o mercado de seguros (opting out) reduzindo a oferta e qualidade dos cuidados de saúde aos utentes mais carenciados. Deitar o sistema baseado na solidariedade dos contribuintes às malvas para fazer vingar um sistema de cariz caritativo ao jeito da eng.ª Isabel Jonet. Deixo aqui pequena história que retrata o que se passava antes do 25 de Abril na saúde nos anos 70:
“Em 1970, um administrador hospitalar, acabado de diplomar, foi designado para integrar a equipa que iria pôr a funcionar o primeiro Hospital Distrital da nova geração: construído, financiado e gerido pelo Estado. O Estado Novo já tinha compreendido que, até por motivos económicos, a fase caritativa da assistência em Portugal estava esgotada e tinha, por isso, lançado um ambicioso plano de construção de novos estabelecimentos. O novo hospital iria suceder ao Hospital da Misericórdia, instalado num edifício com perto de quinhentos anos e mandado construir, de raiz, pelo poder Real. No Hospital da Misericórdia trabalhavam uma dúzia de Médicos, auxiliados pelas Irmãs duma Congregação Religiosa, nenhuma das quais diplomada em Enfermagem, para além do pessoal administrativo e auxiliar. A Urgência estava aberta 24 horas, mas sem presença Médica. Um dia, um cirurgião (foi ele que contou a história ao jovem administrador) é chamado à urgência para suturar uma jovem camponesa a quem uma cornada dum boi, com prosápias de touro, tinha aberto um rasgão numa coxa. Ao iniciar o tratamento recebeu, da Irmã, que o ajudava, um fio muito grosseiro. “Oh Irmã, por favor, dê-me um fio mais fino para ver se faço uma sutura decente”. E lá lhe disse que fio pretendia. De má vontade e cara fechada a Irmã forneceu-lhe o fio e embezerrou. A jovem estava muito nervosa e o Cirurgião, que aliava à excelência clínica uma grande capacidade de empatia com os doentes, ia conversando para a tranquilizar. Os nervos da camponesa não eram, afinal, fruto do medo do tratamento mas da preocupação de ter deixado em casa um filho pequeno. - Mas a criança está sozinha? - Não senhor. Está com o meu homem. - Então, se está com o pai, não há motivo para estar nervosa. - O meu homem não é pai dele. Neste momento, a cara de pau da nossa Irmã de Caridade abriu-se num sorriso irónico, a língua desentaramelou-se-lhe e verberou o Médico com toda a exuberância. “Está ver Sr. Doutor, está a ver! E obrigou-me o Sr. Doutor a ir buscar um fio tão caro para coser esta desavergonhada!
Cada cabeça faça a sua sentença!

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