O
espectro do racionamento paira sobre o SNS. São cada vez mais
frequentes as denúncias e cada mais graves – em termos de saúde -
os casos que atingem as situações oncológicas e muitas ‘patologias
pesadas’, em que está em jogo não somente o bem-estar mas o
‘risco de vida’.
Na
saúde qualquer tipo de racionamento - e mais grave será o
‘encapotado’ porque eminentemente discriminatório – incide
essencialmente sobre o volume e a qualidade do serviço prestado.
Isto é, o racionamento altera sempre o equilíbrio entre produção
(qualitativa e quantitativa), o ‘esforço’ orçamental de suporte
às prestações e as condicionantes técnico-profissionais
disponíveis e estes factos têm (sempre) reflexos directos sobre o
universo dos utentes, a motivação e empenho dos prestadores e sobre
os custos globais. E quando tentamos analisar e equacionar estes
parâmetros díspares - económicos, de gestão, técnicos e humanos
- não estaremos a colocar unicamente a ver o binómio
custos-benefícios, mas a vislumbrar uma gritante iniquidade que pode
ser o racionamento aleatório, i. e., dependente – através da tal
‘lei dos compromissos’ – da situação financeira concreta da
entidade prestadora.
Esta
situação de racionamento encapotado surge, no nosso País, num
momento crucial que não pode ser escamoteado. Pretende-se
‘esterilizar’ a discussão (política) centrando a atenção
sobre uma máxima – os recursos são sempre finitos - que sendo
verdadeira, não pode limitar ou encerrar o debate. De facto, o
problema que actualmente os cidadãos (os utentes) enfrentam em
relação ao SNS é, como tem sido afirmado repetidamente, a
tentativa de mudança do paradigma constitucional (enquanto serviço
universal, equitativo e tendencialmente gratuito).
A
transposição e inserção dos sectores sociais, sem observar
quaisquer condicionantes ou especificidade, na economia de mercado um
objectivo fulcral do neoliberalismo. Assim estamos confrontados com a
tentativa de levar à prática um dogma: ‘só o mercado é capaz de
fornecer eficientemente serviços sociais essenciais – saúde,
educação, previdência, etc.’. E a partir daí toda a discussão
está inquinada. Mesmo para aqueles que, sub-repticiamente, aparecem
a defender o ‘racionamento dito explícito’, ou seja, de acordo
com um projecto de racionalização dos recursos disponíveis.
Porque, como sabemos e aprendemos com a evolução dos últimos 30
anos, no ‘Estado mínimo’, as questões sociais são
secundarizadas. Num ‘mercado’ totalmente dominado pelo sistema
financeiro as opções sobre políticas sociais estão ab initio
condicionadas pelo funil e a triagem da sustentabilidade financeira.
E se reparamos bem este tem sido o terreiro que Paulo Macedo pisa
sistematicamente para abordar e ameaçar o SNS. Assim podemos estar
certos que tudo o possa ser ‘manipulado’ para ser apresentado
como insustentável financeiramente é, numa primeira fase, para
‘racionar’ e de seguida ‘eliminar’ (ou destruir).
No
fim restará algo de residual e o mecanismo de ‘ajustamento’ será
idêntico ao que continua a impor em todos os sectores da vida
fiscal, económica e social. A despesa global em cuidados de saúde
sofrerá um dramático acerto: proceder à gradual transferência dos
65% de gastos públicos em saúde (dados de 2011) para a despesa
privada, i. e., para o bolso dos contribuintes.
O
Alerta do bastonário da Ordem dos Médicos
José
Manuel Silva explica que em causa está, por exemplo, a aprovação
de novos remédios, nomeadamente para o cancro: “O que nós temos
assistido é a atrasos inexplicáveis, que são claramente uma forma
de racionamento encapotado, na aprovação de alguns fármacos”,
acusa o bastonário, que dá como exemplo “o caso de um fármaco
para as metástases dos cancros da próstata que está a ser
utilizado nalguns hospitais e noutros não”.
José
Manuel Silva sublinha que “há hospitais que apresentam muito bons
resultados e até são considerados como um dos melhores, mas são
tudo parâmetros estatísticos e administrativos que estão a ser
analisados”. No entanto, alerta, “a qualidade das terapêuticas e
a utilização ou não de determinadas terapêuticas não é feita”.
Em
entrevista à Renascença, o bastonário denuncia também que, por
causa da crise e da austeridade a que está sujeito o Sistema
Nacional de Saúde, há hospitais a recusar fazer tratamentos a
doentes transferidos de outras unidades de saúde onde esses
tratamentos não existem.
“Os
hospitais que executam essas técnicas, mesmo recebendo os doentes
com termo de responsabilidade, começam a recusá-los, porque têm as
despesas inerentes mas depois não recebem o financiamento”,
afirma.
José
Manuel Silva diz ainda que, com a lei dos compromissos, os hospitais
“ficam encostados à parede porque não podem adquirir o material”
dado que “não recebem o financiamento e não têm disponibilidade
de tesouraria a 90 dias para pagar esse tipo de despesas”.
Assim,
lamenta, “os doentes voltam para trás ou arranjam-se depois
mecanismos de justificar a recusa, sem assumir uma recusa” e “em
última instância, quem é o prejudicado é sempre o doente”.
Enquanto
o isso
o Governo vai dedicar-se a promover a cobrança das taxas moderadoras
por liquidar. Uma
tarefa 'moralizadora' que deverá ser publicamente apresentada como
um mecanismo semeador de equidade.
Ficaria mal conotar essas taxas com a sustentabilidade do SNS para
fugir à ‘má imagem’ dos co-pagamentos mas já aparecem alguns
administradores hospitalares a queixarem-se que lhe faltam no
orçamento alguns milhões.
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