Estamos no final de mais um ano e recentemente duas notícias (prendas) do sector da Saúde agitaram os tugas: nacionalmente a dívida de mil milhões de euros do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e regionalmente um estudo que aponta para a referenciação do atendimento dos utentes urgentes do concelho de Paredes e de Paços de Ferreira do Hospital Padre Américo para o Hospital de S. João no Porto.
A dívida apurada do SNS em 2009 a fornecedores, vem demonstrar que o modelo de empresarialização dos hospitais públicos não veio melhorar significativamente os índices económico-financeiros dos hospitais. Os hospitais E.P.E. registaram um agravamento dos prejuízos em 22.4% para 210 milhões de euros. O objectivo com a criação dos hospitais EPE foi o de flexibilizar, agilizar e adaptar os procedimentos do sector privado ao sector público, que era considerado obsoleto. Na prática os hospitais EPE demoram a pagar aos seus fornecedores, em linha com o modelo tradicional, prestam os mesmos cuidados de saúde, com os mesmos recursos humanos (RH), apenas o vínculo laboral dos RH mudou (para regime geral em detrimento do público) criando instabilidades, ausências de progressões e criando uma crescente insatisfação por parte de alguns grupos profissionais.
Em 2008 o Governo utilizou o Fundo de Apoio ao SNS, em 2009 dos 645.3 milhões de euros de capital, 643.5 milhões de euros estão emprestados aos hospitais, o que dá um saldo de 1.8 milhões de euros. Para 2009, o Secretário de Estado da Saúde, Oscar Gaspar, quer as companhias de seguros a pagarem aos SNS num prazo razoável, com estas a referirem que essas dívidas são de baixo valor no contexto global da dívida do SNS. Os hospitais ainda não são capazes de funcionar como as empresas e ter um saldo positivo, pelo menos uma parte deles.
Neste momento o Governo estuda um modelo de avaliação de desempenho das administrações hospitalares, para premiar as melhores e penalizar as piores. O modelo hierárquico implantado em que as orientações vêm do topo para os serviços terá de ser revisto, de modo a que os serviços possam ter maior autonomia para melhorarem os seus resultados, serviço a serviço, departamento a departamento. A despesa cresce principalmente pela pena dos médicos, que prescrevem medicamentos, exames, tratamentos, etc,. Com a criação dos Centros de Responsabilidade Integrados (CRI) poder-se-á, com os médicos mobilizados e no centro deste processo, travar o crescimento da despesa na sua fonte.
Numa outra frente o estudo do Instituto Superior Técnico de Lisboa, encomendado pela Administração Regional de Saúde do Norte, sobre reordenamento hospitalar sugere que os utentes dos concelhos de Paredes e Paços de Ferreira passem a ser referenciados para os Serviços de Urgência (SU) do grande Porto, por incapacidade de satisfazer as necessidades das populações abrangidas pelo Hospital Padre Américo. Aquando da criação do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa E.P.E. (CHTS) seria previsível que a capacidade instalada, sem qualquer reforço, e já até deficitária, seria necessariamente insuficiente. O universo populacional abrangido é enorme e as carências de médicos de família nos Centros de Saúde, repercurte-se no Serviço de Urgência do CHTS. Que não reformou o SU, não aumentou o seu espaço físico e não criou equipes estáveis, recorrendo sistematicamente ao outscorcing de clínicos. Todos estes factores , em picos de afluência ao SU criam situações de insatisfação, quer de quem presta os cuidados, quem de quem a ele recorre. Horas de espera para serem observados, geram descontentamento patente no estudo Avaliação do Modelo de Satisfação dos Utentes realizado pela Universidade Nova de Lisboa, onde o CHTS ocupa o último lugar. Apesar da Acreditação que obteve junto da Joint Comission Internacional símbolo de Qualidade reconhecido internacionalmente, ainda existe um longo caminho para que se melhore a satisfação dos utentes, que deverão ser o centro das actividades em Saúde.
A administração cessante, não foi capaz de antecipar este problema. E os autarcas locais não interviram, em sede própria, aquando da discussão pública do reordenamento hospitalar proposto. Apenas o município de Felgueiras apresentou propostas. Os municípios de Paredes e Paços de Ferreira não se pronunciaram a seu tempo, ficando a ver a bandeira no cimo do mastro.
Esperemos que o vento sopre a favor das populações mais carênciadas, que terão mais dificuldades em aceder a um SU mais distante.
A ver vamos, que rumo a Saúde levará em 2010.
A minha crónica, suscitou um esclarecimento por parte do Centro Hospitalar Tâmega e Sousa E.P.E., rebatendo o que fora publicado. Fico contente por constatar que responsáveis do CHTS lêem a minha coluna, esperando que trabalhem com o mesmo afinco para debelar os crónicos problemas do hospital.
ResponderEliminarTodos os contributos, mesmo os contrários ao nosso ponto de vista, devem ser escutados, as instituições de saúde só existem porque existem doentes, e não o contrário.
Trata-se de um artigo de opinião, uma crítica construtiva, baseada em pesquisas e factos reais. Opiniões e críticas que devem ser levadas em conta por todos os envolvidos nos interesses das populações, sobretudo quando está em causa a sua Saúde e bem estar.